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Coronavírus: pelo mundo, brasileiros vivem ‘novo normal’ da flexibilização

Enquanto alemães se referem à pandemia como algo que já passou, chineses seguem rigorosos, mesmo sem casos

27/07/2020 13h53
Por:

Por O Tempo

No início de junho, depois de dois meses isolados em uma casa em Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, o tradutor Luan Orsini, 35, e a mulher dele, a professora de alemão Charlotte Steinke, 34, resolveram retornar à cidade natal dela, Leipzig, no Estado da Saxônia, em meio à pandemia do coronavírus. Como Charlotte é representante na UFMG do DAAD, o Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico, ambos tiveram as passagens de volta custeadas pelo governo do país europeu. A condição era que, após a chegada, os dois ficassem duas semanas inteiras sem saírem de casa. 

“Não teve nenhum acompanhamento por parte das autoridades, foi tudo na base da confiança. Na teoria, se saíssemos e infectássemos alguém, poderíamos ser responsabilizados”, diz Orsini, que se surpreendeu quando, depois da quarentena obrigatória, saiu pelas ruas de Leipzig e descobriu uma vida “quase normal” – até a semana passada, a cidade de 560 mil habitantes tinha registrado 647 casos e 12 mortos pela Covid-19 no total.

“É obrigatório usar máscara no supermercado, no transporte público e em lojas. Mas é comum ver gente na rua sem – e até dentro dos ônibus e dos bondes. Tem mais álcool em gel disponível nos locais”, conta o mineiro.

Em Leipzig, os restaurantes e bares já reabriram, com algumas restrições. “As pessoas também estão falando menos da pandemia, parece que é algo que ficou no passado. Elas se cumprimentam normalmente, mas virou praxe perguntar se pode apertar as mãos ou abraçar”, conta o tradutor.

Vivendo há 15 anos em Bassano del Grappa, na região italiana de Vêneto, a jornalista paulista Janaína Cesar, 45, estava, em março, no meio de uma viagem de trabalho, em plena Amazônia, quando a Itália decretou o fechamento das fronteiras.

Depois de uma saga com escala em Porto Seguro, na Bahia, ela conseguiu retornar, no fim do mês, em um voo quase vazio para o país onde reside. Na época, estavam fechadas as fronteiras internas, e os habitantes só podiam sair para ir ao trabalho, comprar mantimentos ou ir ao médico.

Desde o início da pandemia, a região de Vêneto, com 4,9 milhões de habitantes, contabiliza cerca de 19 mil casos e 2.000 mortes. As máscaras são obrigatórias – e amplamente utilizadas. “A grande maioria das pessoas permaneceu (no auge da pandemia) em casa e havia controle, com multas”, explica.

Com a reabertura gradual na Itália, estabelecimentos e restaurantes voltaram a funcionar, com restrições. Visitas às casas de repouso de idosos também foram liberadas, mas logo depois o governo da região recuou devido ao aumento da contaminação. “Com a abertura, as pessoas não foram para a rua de imediato. Primeiro, foram os que tinham que trabalhar e só agora estamos na fase de ir a bares”, diz ela, que chegou a visitar Veneza há cerca de um mês com as duas filhas – e pôde fazer um passeio de gôndola com elas pela primeira vez – e por metade do preço anterior – nas águas bem mais limpas da cidade turística. “Vi águas-vivas e até caranguejos”, lembra.

China

Em Macau, na China, o controle continua mesmo após os casos terem sido praticamente zerados. Durante toda a pandemia, a região autônoma teve 46 casos confirmados, todos recuperados. O último deles foi em 26 de junho. Moradora há 15 anos da cidade de 670 mil habitantes, a gaúcha Luiza Zancan, 29, diz que o rigor continua.

“Todo mundo usa máscaras. Os ônibus continuam lotados, mas são desinfetados a cada hora, assim como elevadores, maçanetas e botões. Se você é residente, a cada dez dias tem o direito de pegar dez máscaras para uso pessoal pelo valor de US$ 1”, conta a professora de inglês. Quem acha que foi exposto pode ir a um posto de saúde testar de graça. “A China tem noção de que o mundo só vai voltar à normalidade quando zerarem todos os casos”, resume.

Nova fase também é dramática

Há cerca de um ano e meio em Porto, Portugal, onde vive com o marido, o músico Leonardo Mendonza, 48, diz que o pós-pandemia é tão dramático quanto o lockdown. O país, que tem quase 50 mil casos e cerca de 1.700 óbitos pela doença, ainda não reabriu totalmente os bares e restaurantes.“Sem fluxo grande de turistas, a economia fica muito enfraquecida”, explica.

Segundo ele, algumas medidas do governo português, como ceder cestas básicas para a população e atrasar pagamento de aluguéis, além de benefícios emergenciais, foram cruciais. “O governo fez o que pôde para controlar a situação, e a população entendeu esse empenho”, relata.

Brasil vira mau exemplo na África

Em Guiné-Bissau, o 12º país com o pior índice de desenvolvimento humano segundo a ONU, o Brasil virou um exemplo do que não deve ser feito. Trabalhando com cooperação internacional por lá desde o ano passado, o mineiro João Hernani, 33, diz que os guineenses sentem pena da situação brasileira.

“Eles ficam consternados e com pena da gente, porque percebem que temos um governo totalmente incapaz de lidar com essa situação”, afirma ele, que se sente mais seguro durante a pandemia lá do que se estivesse na terra natal.

Em Guiné-Bissau, a flexibilização já está em curso. O país tem quase 2.000 casos e 26 mortes pela Covid-19.

Dinheiro em papel sai de moda

Depois de um lockdown rigoroso no começo da pandemia, o governo da Califórnia iniciou em junho uma flexibilização. No entanto, um pico de casos e recorde de mortes diárias na última semana colocaram em xeque o plano – até o momento, o Estado tem mais de 436 mil casos e 8.000 mortes. 

Em Los Angeles desde o ano passado junto do marido, a mineira Agatha Santos, 29, está apreensiva. “Parecia que tudo ia ficar bem, aí começou o número de casos a aumentar novamente há duas semanas”, conta, ao dizer que a reabertura começou após pressão de parte da população, insatisfeita com o fechamento. “Num primeiro momento, todo mundo usava máscara. Depois, as pessoas foram cansando”, relata.

A curta experiência de “normalidade”, no entanto, revelou algumas características que devem fazer parte da nova rotina: pagamentos por meio de QR Code, menus reduzidos e individuais e mesas distantes. Foi o que Agatha experimentou ao sair para jantar uma vez durante a flexibilização. “Você paga pelo celular – o garçom te mostra um QR Code com a conta. O cardápio também está bem reduzido porque eles imprimem uma versão para cada pessoa que chega no restaurante”, conta a formada em enfermagem.

Na Itália, a experiência é parecida. “O dinheiro vivo desapareceu”, conta a jornalista Janaína Cesar, que mora na região de Vêneto. “Os menus estão bem reduzidos. Em vez de dez pratos são três, quatro. O garçom anota os pedidos numa maquininha digital que vai pro pessoal da cozinha, e os pagamentos também podem ser feitos por QR Code ou cartão”, detalha a paulistana.

A realidade do código para leitura em smartphones não fica restrita apenas aos pagamentos. A gaúcha Luiza Zancan, que vive em Macau, na China, explica que a tecnologia tem sido utilizada para controlar a frequência em locais públicos e reduzir a possibilidade de contaminações.

“Se você precisar ir aos correios ou ao banco, por exemplo, vai ter que responder a um questionário, que é válido só para um dia”, diz. As perguntas são relacionadas aos contatos com possíveis contaminados, sintomas etc. “Até mesmo nos shoppings e no dentista, por exemplo, você só entra se tiver esse QR Code que diz que você não apresenta um risco”, afirma a professora.

E as mudanças vão além da forma de pagamento. Algumas profissões estão tendo que seguir outro tipo de protocolo. O músico Leonardo Mendonza, que vive em Porto, em Portugal, tem tido dificuldades de se apresentar em locais fechados, como teatros e casas de shows – os estabelecimentos ainda estão fechados. No entanto, as apresentações em local aberto estão liberadas. “É meio caótico, a gente canta de viseira. Não atrapalha, mas é estranho. Estamos tentando voltar à normalidade, mas acho que ainda vai demorar”, finaliza.