Raul Soares – Quando os faróis de caminhões e tratores se apagam e o ruído dos motores dos equipamentos que abrem caminho na lama se silenciam, o medo toma conta dos imóveis onde se abrigam os atingidos e desalojados pela cheia do Rio Matipó, em Raul Soares.
No escuro, as famílias sobreviventes de um dos municípios mais castigados pelas tempestades que afligem a Zona da Mata mineira perdem o sono por causa do rio que permanece cheio, das nuvens pesadas de chuva e dos rumores de que ladrões estão saqueando as moradias de 40 famílias que tiveram de deixar suas casas. Como vários postes caíram derrubados pela força das águas, as noites são escuras e os ruídos mais presentes são o das corredeiras do rio, dos cães vadios e dos trovões.
Da janela da casa de uma vizinha que a acolheu, a aposentada Filomena Alves de Assis, de 61 anos, passa as noites em vigília observando a casa onde mora sozinha, no Bairro Bom Jesus, que foi arrasado pelas cheias entre sexta-feira e domingo. A casa não tem mais condições de ser habitada depois que um rio de lama a invadiu. “Como diz o outro: a nossa casa e a rua virou parte do rio. Só com barcos ou nadando é que se conseguia sair daqui e ajudar aos outros”, afirma. Dentro do imóvel ainda estão os pertences da aposentada, muitos deles arruinados, mas que são tudo que ela tem. “Tenho medo de que alguém entre na casa, porque a água estourou a porta e ela ficou só encostada. Estão dizendo que tem gente ruim entrando (nas casas atingidas) e roubando. Então, eu fico vigiando e rezo para Deus ajudar”, disse.
Filomena mesmo, no entanto, admite que poucos pertences terão salvamento. “Ficou para trás o meu colchão, uma porção de coisas pegou mal cheiro. Tem de lavar, mas está faltando água no bairro desde a enchente. Hoje (ontem), acabei de tirar a cama, o guarda-roupa e a cômoda para uma parte mais seca. Mas está tudo ensopado ainda. Era muita água. Tava dando para passar de barco”, conta.
Mesmo a mais fina garoa e os reflexos de raios nas nuvens conseguem tirar o sossego das noites da família do vendedor José Teixeira Frade, de 54. A casa dele fica na beira de um barranco onde a ponte que liga os dois extremos de Raul Soares foi levada pela água, assim como a casa do vizinho. “Esse barranco vai só se abrindo com a força da água. Levou a ponte e a casa do meu vizinho num estouro só. Tem três noites que não durmo com medo de que o Rio Matipó engula também minha casa”, afirma o vendedor.
Na casa onde ele mora com a mulher, a manicure Hermelinda Teixeira Frade, de 49, e uma filha de 27 anos, os mantimentos ficaram empilhados sobre a mesa da cozinha, geladeira e fogão sobre mesas e vários móveis, como estantes, sofá e armários acabaram sendo perdidos ao absorver a água enlameada. “Vimos a água chegando era umas 10h. Passou por cima da ponte e levou tudo depois de três estouros. Tenho um pânico da minha casa cair, mas não podemos sair porque tem gente entrando e levando as coisas da gente”, conta Hermelinda.
A manicure perdeu para a lama, inclusive, o salão onde fazia a unha das clientes e parte do material de pintura e assepcia. Tanta tensão a levou para o hospital. “Passei mal demais na noite de domingo. Minha pressão foi a 20. Fiquei lá no hospital até ser medicada e a pressão baixar. Mas já está alta de novo, mesmo com os remédios que a doutoura me receitou. Ela disse que é emocional, que preciso de ter descanso. Mas não dá para dormir. Fico escutando a força do rio batendo nos pedaços da ponte como se fosse as ondas de uma praia. É um terror saber que a sua casa pode ser levada pelo rio ou desabar”, desabafa.
Para não ter de deixar a casa com tudo o que têm, o lanterneiro Carlos José Tanz, de 38, e a mãe dele, Dalva Lúcia Raspante Tanz, de 73, levaram o que conseguiram salvar para a garagem da frente da residência onde funcionava a oficina dele. Cama de casal, armários, geladeira e sofás constituiram uma nova casa improvisada completamente aberta para a rua. Assim, dormem praticamente expostos para a rua, sendo que muitos que passam até param para assistir à programação que passa na sua televisão. Uma forma de conseguir um pouco mais de privacidade foi estacionar o carro, um Fiat Palio, na porta para bloquear o máximo possível da visão. “A gente preocupa muito quando começa a chover. A casa não ficou comprometida, o rio subiu e desceu, mas deixou tudo coberto de lama. A gente não queria ir para a casa de outras pessoa e preferimos trazer tudo para a oficina”, disse o lanterneiro.