O ano de 2020 tem tudo para ser especial também para a Küd. A cervejaria, com sede no Jardim Canadá, completa uma década de história. A exemplo de muitas fábricas, o sócio Bruno Parreiras começou fazendo a bebida em casa, ao lado de amigos (sempre ao som de muito rock’n’roll). De hobby, a produção virou obrigação, já que os amigos aprovaram o resultado da empreitada. Hoje, a Küd, que produz cerca de 30 mil litros, já emplacou 32 rótulos, que primam pela ousadia e experimentação. "Temos outros na manga", avisa Bruno, que também é presidente do SindBebidas-MG. Para ele, a procura pelas artesanais não esfriou por causa do episódio da Backer, mas cada vez mais "é preciso trabalhar para mostrar que as cervejarias lançam mão de processos seguros".
Como a Küd, é comum que muitas marcas nasçam de maneira despretensiosa. Foi o caso da Capapreta criada em 2013 por Lucas Godinho. As primeiras brassagens (nome dado à mistura dos ingredientes para produzir a cerveja) realizadas no sítio da família em Nova Lima rendiam 200 litros por mês. Mas a coisa ficou séria. Lucas viu que poderia participar de um mercado em franco crescimento. E assim fez. Hoje, a cervejaria é uma das que mais crescem no estado. A produção mensal gira em torno de 30 mil litros. Até o meio deste ano deve ser concluído um investimento de 1,5 milhão de reais em novos processos, equipamentos e inovação. O incremento deve aumentar a produção para 50 mil litros por mês. A marca tem uma peculiaridade. Lucas e seus sócios fizeram da cervejaria a primeira do estado a migrar 100% para as latas. Além disso, possuem bares - os chamados tap houses - não apenas na região de BH e Nova Lima, mas no Rio de Janeiro e em São Paulo. "BH é um polo pulsante, e a artesanal tem ganhado acessibilidade. Há três ou quatro anos, era item de luxo, com acesso difícil. Hoje não mais. O mercado continua crescendo", diz Lucas.
O otimismo em relação ao mercado tem levado as cervejarias a planejamentos ousados. Com um bar no Vila da Serra, um galpão no Jardim Canadá e um Growler Station no Sion, a Sátira, fundada em 2015, deve inaugurar dois novos pontos na Grande BH. Há planos de lançar ainda um projeto de franquias e de comercializar em outros estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás, além do Distrito Federal. Na capital mineira, pretende entrar em supermercados com suas latas, recém-lançadas. "A cerveja artesanal está ficando mais comum, mais presente na rotina, na vida das pessoas", diz o sócio-fundador, Eduardo Gomes. Ele concorda que o mercado (que representa entre 1% e 3% do segmento, a depender do levantamento) ainda tem margem para muita expansão. Há, no entanto, duas barreiras a serem superadas. "Além da grande concorrência - entre as marcas artesanais e também com as cervejas especiais produzidas pela grande indústria -, a gente luta contra a informalidade e a tributação excessiva", diz.
Segundo Marcelo Paixão, sócio da Verace, nos Estados Unidos (onde o mercado artesanal representa cerca de 25% do segmento), o governo percebeu o crescimento do setor e repensou a questão tributária, o que ajudou a alavancar a produção. "É praticamente inviável uma empresa pagando de 40% a 60% de imposto, como é o caso aqui", afirma. Ainda assim, a cervejaria, criada em 2016, projeta a terceira expansão para o ano que vem. A ideia é aumentar a capacidade, que hoje é de 80 mil litros, para 120 mil litros por mês. De 2018 para 2019, a cervejaria comemorou o crescimento de 40%. "Se fizermos esse paralelo entre Brasil e Estados Unidos, guardadas as devidas proporções, ainda é possível crescer muito", diz.
O interior do estado também oferece bons exemplos desse mercado. A 87 quilômetros de Belo Horizonte, está a fábrica da Prussia. Ela começou a nascer de forma bem semelhante a de outras cervejarias. Fernando Cota, um dos sócios, em viagem pela Europa, experimentou vários rótulos de cervejas artesanais. Retornou para casa em 2008 e viu que o mercado estava para explodir. E mais, BH ainda não oferecia muitos lugares para degustar as cervejas. Ele, então, convocou dois amigos, os irmãos Douglas e Railton Vidal, para a empreitada. Em 2014, surgiu a Prussia, depois de Fernando mergulhar nos estudos de teoria e prática cervejeira. No ano seguinte, a marca já estava no festival Experimente, geralmente realizado no Jardim Canadá, em Nova Lima. "O cenário está mudando. O mercado está ficando mais maduro, pois quem está entrando já vem com uma visão profissional. Não é só fazer uma cerveja boa", diz. A capacidade atual é de 11,5 mil litros por mês, mas após a expansão da fábrica, já em curso, dará um salto para 77 mil litros mensais.
Um outro mercado que se abriu foi o de cervejarias ciganas. Como o próprio nome sugere, são cervejeiros que não possuem fábricas próprias. Dessa forma, muitas empresas cedem os seus espaços para os microcervejeiros. Esse potencial foi visto pelos fundadores da Artesamalt, aberta em 2006. A marca produzia 10 mil litros por mês e, em 2015, os sócios decidiram expandir a fábrica, que fica em Capim Branco, a 54 quilômetros de BH, justamente para abrigar as tais cervejarias ciganas. "Somos prova desse crescimento do mercado. Com pouco capital de giro, as empresas podem produzir suas cervejas. Não precisam ter estrutura própria e podem investir na marca e em marketing, outros quesitos também importantes", diz João Paulo Figueiredo, sócio-proprietário da Artesamalt. Atualmente, a produção na cervejaria é de 60 mil litros mensais, dos quais 30% são da bebida própria - que é vendida para cidades no interior de Minas. Trata-se da maior indústria cigana do estado, onde são produzidos mais de 600 rótulos de marcas variadas de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Mato Grosso. "Não só BH tem potencial para ampliação do mercado consumidor. Ainda que a capital seja mais pujante nesse sentido, também as cidades do interior têm esse nicho. O mineiro gosta de cerveja. E cerveja de qualidade." E não é um caso isolado que vai acabar com essa paixão.
