RR MÍDIA 3
Saae
Una total
RR 2023 02
NEGÓCIOS

Apesar do caso Backer, mercado de cerveja artesanal deve crescer em Minas

Mesmo com a turbulência inicial, marcas afirmam que os projetos de expansão seguem a todo vapor em 2020

18/02/2020 13h40
Por:
O ano começou tenso para quem curte tomar uma cerveja artesanal. A principal cervejaria do tipo no estado, a Backer, eleita em 2019 a melhor do país no Concurso Brasileiro de Cervejas, foi acusada de vender bebida contaminada por substância tóxica. Até o fechamento desta edição, seis pessoas haviam morrido e a principal suspeita era de que as mortes haviam sido causadas pela ingestão de dietilenoglicol presente em garrafas de Belorizontina. A notícia ganhou repercussão nacional e internacional. Não é para menos. Trata-se do único caso no mundo envolvendo contaminação pela substância em cervejas. E olhe que a bebida é produzida e consumida desde a Antiguidade. Polícia Civil e representantes do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) seguem investigando a história, que pelo visto está longe de ter um capítulo final.
 
É natural, portanto, que o episódio tenha deixado alguns consumidores apreensivos, questionando se haveria o risco de o caso se repetir com rótulos de outras cervejarias artesanais. Por causa disso, fábricas mineiras correram para se posicionar e tranquilizar os amantes da união de água, malte e lúpulo. Não, não há chances de o episódio de contaminação se repetir em outras cervejarias. Segundo a Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), de 200 fábricas contatadas, no Brasil inteiro, apenas 1,5% informou usar o monoetilenoglicol - substância com grau de toxicidade menor que o dietilenoglicol, que teria causado as mortes. Esses compostos químicos podem ser usados para resfriar o mosto, que é a cerveja antes de ser fermentada. A rigor esses produtos não entram em contato com a bebida. A grande maioria das empresas usa no processo de resfriamento álcool, propilenoglicol e outros compostos considerados "alimentícios". Ainda que entrassem em contato com a bebida, não causariam prejuízos à saúde humana. O Sindicato das Indústrias de Cerveja e Bebidas em Geral do estado de Minas Gerais (SindBebidas-MG), alinhado com a Abracerva, solicitou ao Ministério da Agricultura o banimento do monoetilenoglicol e dietilenoglicol do processo de produção da bebida. A reivindicação ainda está sendo estudada pela pasta.
O desenrolar das investigações do "caso Backer" vem mostrando que esse é um episódio isolado e pontual. No início de fevereiro, a Abracerva informou que o Ministério da Agricultura examinou cerca de 100 rótulos de cervejas disponíveis no mercado de Minas Gerais e em nenhuma delas foi constatada a presença de compostos tóxicos. "O público tem de ter a consciência de que a legislação que existe para a cervejaria artesanal é a mesma que existe para uma cervejaria de grande porte", afirma Rodrigo Ferraz, sócio-fundador da Cervejaria Albanos, e envolvido com o setor desde a década de 1990. Marco Falcone, sócio da Falke e diretor da Abracerva, complementa: "O nosso público é muito maduro e sabe dos cuidados que temos com a nossa produção. Nossa indústria é comparada às melhores cervejarias do mundo". 
 
Presidente da Abracerva, Carlo Lapolli reafirma que o caso foi preocupante, porém, isolado. "E o mercado está entendendo isso. Não registramos queda nas vendas e o consumidor vai continuar impulsionando esse crescimento", afirma. A reportagem de Encontro entrou em contato com alguns bares e distribuidoras da cidade que comercializam rótulos de cervejas artesanais. Apesar do baque inicial, nenhum constata  impacto negativo nas vendas atualmente. "Nossos números continuam imutáveis. Os clientes perguntam sobre o caso da Backer, mas não deixam de consumir outros rótulos", diz Lucas Zacharias, sócio do Bar Protótipo, em Santa Tereza. De acordo com ele, o estabelecimento vende cerca de 3 mil litros por mês de mais de 60 rótulos de cervejas artesanais.
A cada ano, cresce o número de consumidores que desejam desbravar o mundo das artesanais. Na mesma toada, o setor cervejeiro de Minas Gerais vem amadurecendo. E os números impressionam. De acordo com Carlo Lapolli, presidente da Abracerva, 2019 fechou com 1189 cervejarias no país, o que corresponde a um crescimento de mais de 30% em relação a 2018. O estado é o terceiro do ranking em número de fábricas. São 159 ao todo, atrás de Rio Grande do Sul (233) e São Paulo (243). Em relação a 2018, Minas deu um salto de quase 40% no número de empresas do setor operando. No estado, as fábricas projetam crescimento para 2020, a exemplo do que já vinha acontecendo nos últimos cinco anos, período no qual se registrou média de 20% a 25% de incremento de um ano para o outro.  
 
O austríaco Herwig Gangl, sócio-fundador da Krug Bier, uma das precursoras do setor no estado, afirma que o mercado cervejeiro artesanal ainda tem muito o que crescer. "Agora, nosso papel é mostrar para o consumidor que a cerveja continua sendo uma bebida segura, o que é constatado nos últimos 8 mil anos", diz ele, que abriu a Krug em 1997. Atualmente, a cervejaria com sede no Jardim Canadá é a que registra maior capacidade de produção: 400 mil litros por mês - a Backer produzia 800 mil litros por mês, mas teve a fabricação paralisada. A média atual da Krug foi fruto da última expansão pela qual a fábrica passou e que consumiu pelo menos 3 milhões de reais. A empresa, inclusive, foi a primeira cervejaria a fincar bandeira no bairro de Nova Lima, em 2005. Antes, a bebida era produzida em um galpão no Belvedere, que acabou ficando pequeno. "Nossa rua era de terra ainda", lembra Alexandre Bruzzi, sócio na cervejaria, sobre o cenário que encontraram no Jardim Canadá. De lá para cá, o bairro virou Polo Cervejeiro, com pelo menos 17 fábricas. Agora, a meta da Krug é escancarar as portas de seu galpão para os clientes. "Vamos promover uma experiência diferente para os nossos consumidores", afirma Alexandre, preocupado em oferecer maior transparência para os fãs.
Impulsionar a cultura cervejeira artesanal sempre foi um mantra para Marco Falcone, sócio-fundador da Falke. Ele começou a fazer cerveja ainda na panela, de modo caseiro, na década de 1980. Apaixonou-se pela experiência. Viajou para a Europa e começou a estudar as etapas de produção da bebida. Quando retornou a BH não teve dúvidas e abriu, em 2004, com seus irmãos, Ronaldo e Juliana, a Falke. "Começamos a conquistar um público que não queria apenas beber, mas entender a cultura cervejeira. Assim, começamos a realizar cursos", diz Falcone, vice-presidente do SindBebidas-MG, e uma das referências do setor no estado. Na fábrica, no Condomínio Vale do Ouro, em Ribeirão das Neves, os sócios esperam terminar 2020 com o salto na produção de 35 mil litros para 60 mil litros por mês. Lá, são produzidos 11 rótulos de garrafas e mais quatro que ficam armazenados em barris. Ano passado, foi inaugurado o primeiro bar da cervejaria, a Casa Falke, na rua Major Lopes, no bairro São Pedro, que oferece 15 torneiras de chope da marca.
 
Marcas tradicionais ampliam a quantidade de estilos produzidos. Em 2018, o Albanos, por exemplo, escreveu um novo capítulo em sua história. De casa que fazia apenas o chope Pilsen (estilo mais consumido no país), a empresa de Rodrigo Ferraz foi transformada em plataforma cervejeira. Agora, além de saborear pelo menos sete tipos diferentes da bebida, no endereço da Pium-í, no Sion, os clientes têm a oportunidade de mergulhar no universo da cerveja. "A Plataforma Albanos veio para fortalecer a cultura cervejeira. Oferecemos fábrica, bares, cursos, expedições cervejeiras e conteúdos sobre o assunto", diz Rodrigo. Com a novidade, a empresa experimentou em 2018 crescimento de 50% na produção. Este ano, o Albanos deve expandir a distribuição dos rótulos em supermercados, inclusive em estados como Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e no Distrito Federal.
O ano de 2020 tem tudo para ser especial também para a Küd. A cervejaria, com sede no Jardim Canadá, completa uma década de história. A exemplo de muitas fábricas, o sócio Bruno Parreiras começou fazendo a bebida em casa, ao lado de amigos (sempre ao som de muito rock’n’roll). De hobby, a produção virou obrigação, já que os amigos aprovaram o resultado da empreitada. Hoje, a Küd, que produz cerca de 30 mil litros, já emplacou 32 rótulos, que primam pela ousadia e experimentação. "Temos outros na manga", avisa Bruno, que também é presidente do SindBebidas-MG. Para ele, a procura pelas artesanais não esfriou por causa do episódio da Backer, mas cada vez mais "é preciso trabalhar para mostrar que as cervejarias lançam mão de processos seguros". 
 
Como a Küd, é comum que muitas marcas nasçam de maneira despretensiosa. Foi o caso da Capapreta criada em 2013 por Lucas Godinho. As primeiras brassagens (nome dado à mistura dos ingredientes para produzir a cerveja) realizadas no sítio da família em Nova Lima rendiam 200 litros por mês. Mas a coisa ficou séria. Lucas viu que poderia participar de um mercado em franco crescimento. E assim fez. Hoje, a cervejaria é uma das que mais crescem no estado. A produção mensal gira em torno de 30 mil litros. Até o meio deste ano deve ser concluído um investimento de 1,5 milhão de reais em novos processos, equipamentos e inovação. O incremento deve aumentar a produção para 50 mil litros por mês. A marca tem uma peculiaridade. Lucas e seus sócios fizeram da cervejaria a primeira do estado a migrar 100% para as latas. Além disso, possuem bares - os chamados tap houses - não apenas na região de BH e Nova Lima, mas no Rio de Janeiro e em São Paulo. "BH é um polo pulsante, e a artesanal tem ganhado acessibilidade. Há três ou quatro anos, era item de luxo, com acesso difícil. Hoje não mais. O mercado continua crescendo", diz Lucas.
O otimismo em relação ao mercado tem levado as cervejarias a planejamentos ousados. Com um bar no Vila da Serra, um galpão no Jardim Canadá e um Growler Station no Sion, a Sátira, fundada em 2015, deve inaugurar dois novos pontos na Grande BH. Há planos de lançar ainda um projeto de franquias e de comercializar em outros estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás, além do Distrito Federal. Na capital mineira, pretende entrar em supermercados com suas latas, recém-lançadas. "A cerveja artesanal está ficando mais comum, mais presente na rotina, na vida das pessoas", diz o sócio-fundador, Eduardo Gomes. Ele concorda que o mercado (que representa entre 1% e 3% do segmento, a depender do levantamento) ainda tem margem para muita expansão. Há, no entanto, duas barreiras a serem superadas. "Além da grande concorrência - entre as marcas artesanais e também com as cervejas especiais produzidas pela grande indústria -, a gente luta contra a informalidade e a tributação excessiva", diz.
Segundo Marcelo Paixão, sócio da Verace, nos Estados Unidos (onde o mercado artesanal representa cerca de 25% do segmento), o governo percebeu o crescimento do setor e repensou a questão tributária, o que ajudou a alavancar a produção. "É praticamente inviável uma empresa pagando de 40% a 60% de imposto, como é o caso aqui", afirma. Ainda assim, a cervejaria, criada em 2016, projeta a terceira expansão para o ano que vem. A ideia é aumentar a capacidade, que hoje é de 80 mil litros, para 120 mil litros por mês. De 2018 para 2019, a cervejaria comemorou o crescimento de 40%. "Se fizermos esse paralelo entre Brasil e Estados Unidos, guardadas as devidas proporções, ainda é possível crescer muito", diz.
O interior do estado também oferece bons exemplos desse mercado. A 87 quilômetros de Belo Horizonte, está a fábrica da Prussia. Ela começou a nascer de forma bem semelhante a de outras cervejarias. Fernando Cota, um dos sócios, em viagem pela Europa, experimentou vários rótulos de cervejas artesanais. Retornou para casa em 2008 e viu que o mercado estava para explodir. E mais, BH ainda não oferecia muitos lugares para degustar as cervejas. Ele, então, convocou dois amigos, os irmãos Douglas e Railton Vidal, para a empreitada. Em 2014, surgiu a Prussia, depois de Fernando mergulhar nos estudos de teoria e prática cervejeira. No ano seguinte, a marca já estava no festival Experimente, geralmente realizado no Jardim Canadá, em Nova Lima. "O cenário está mudando. O mercado está ficando mais maduro, pois quem está entrando já vem com uma visão profissional. Não é só fazer uma cerveja boa", diz. A capacidade atual é de 11,5 mil litros por mês, mas após a expansão da fábrica, já em curso, dará um salto para 77 mil litros mensais.
Um outro mercado que se abriu foi o de cervejarias ciganas. Como o próprio nome sugere, são cervejeiros que não possuem fábricas próprias. Dessa forma, muitas empresas cedem os seus espaços para os microcervejeiros. Esse potencial foi visto pelos fundadores da Artesamalt, aberta em 2006. A marca produzia 10 mil litros por mês e, em 2015, os sócios decidiram expandir a fábrica, que fica em Capim Branco, a 54 quilômetros de BH, justamente para abrigar as tais cervejarias ciganas. "Somos prova desse crescimento do mercado. Com pouco capital de giro, as empresas podem produzir suas cervejas. Não precisam ter estrutura própria e podem investir na marca e em marketing, outros quesitos também importantes", diz João Paulo Figueiredo, sócio-proprietário da Artesamalt. Atualmente, a produção na cervejaria é de 60 mil litros mensais, dos quais 30% são da bebida própria - que é vendida para cidades no interior de Minas. Trata-se da maior indústria cigana do estado, onde são produzidos mais de 600 rótulos de marcas variadas de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Mato Grosso. "Não só BH tem potencial para ampliação do mercado consumidor. Ainda que a capital seja mais pujante nesse sentido, também as cidades do interior têm esse nicho. O mineiro gosta de cerveja. E cerveja de qualidade." E não é um caso isolado que vai acabar com essa paixão.