Por EM
A pandemia de coronavírus pode tornar ainda mais árduo o calvário das vítimas de envenenamento por dietilenoglicol, substância tóxica encontrada nas cervejas da Backer entre dezembro de 2019 e janeiro de 2020.
Familiares de intoxicados relatam que têm sido orientados por profissionais de saúde a retirar os parentes dos hospitais em que eles se encontram internados, por conta do risco de contaminação pela COVID-19. Muitos também tiveram consultas, exames e procedimentos cancelados em razão do surto, que já mobiliza boa parte da estrutura de saúde do estado.
A situação gerou entre as famílias o temor de que o quadro de saúde dos envenenados se agrave. Várias também afirmam passar por dificuldades financeiras, já que têm bancado, com recursos próprios, despesas como serviços de enfermagem, aluguel de equipamentos hospitalares, adaptação de ambientes, entre outros gastos, que batem na casa dos R$ 35 mil mensais
Em 6 de março deste ano, a Justiça determinou à Backer o custeio emergencial do tratamento médico das vítimas. As famílias, no entanto, alegam que estão abandonadas. Apenas um dos 42 consumidores lesados teria recebido alguma assistência.
Batalha no SUS
Filha do taxista Josias Moreira de Matos, que consumiu a cerveja belorizontina em dezembro do ano passado, Dayane Mattos diz que o pai se trata pelo SUS. Segundo a motorista de 20 anos, a intoxicação fez com que ele perdesse a visão e as funções renais, deixou sequelas neurológicas, além de provocar paralisia facial e dos membros. O homem chegou a ficar internado na Santa Casa e, agora, é acompanhado por especialistas da rede pública. A moça afirma que, em razão do surto viral, quase todos os atendimentos e exames agendados foram cancelados nas últimas semanas.
“Recebemos encaminhamento para consultas com neurologistas, nefrologistas, oftalmologistas, entre outras especialidades. Conseguimos apenas uma marcação, a do neurologista. Ele passou exames como ressonância do crânio e da coluna. Esses procedimentos, normalmente, já demoram pelo SUS. Entramos na lista de espera. Por causa do coronavírus, fecharam a lista e não há previsão de retorno”, conta Dayane.
A jovem tem receio de que o pai fique com sequelas permanentes em função da demora no atendimento. Ela diz que solicitou à Backer que pagasse pelo tratamento na rede particular, mas, até o momento, não obteve qualquer auxílio. Ainda de acordo com Dayane, o adoecimento do pai impactou severamente o orçamento da família.
“Ele era o nosso principal provedor. Ele é quem pagava a prestação do nossa casa, por exemplo. Desde que ele ficou doente, estamos ‘pendurando’ um boleto atrás da outro. Ainda mais agora, com a pandemia. Trabalho como motorista particular e a praça está fraquíssima. As vezes preciso escolher entre a prestação da casa, a do carro, ou as contas de manutenção”, diz.
Home care
Os cuidados com o aposentado Marco Aurélio Cotta, de 64 anos - que também bebeu belorizontina em dezembro do ano passado e está internado no Hospital Mater Dei há 96 dias-, já ultrapassam R$ 10 mil mensais. O cálculo é da filha dele, Ângela Cotta. Segundo a arquiteta, esse é o custo de manutenção de enfermeiras durante 24 horas no quarto do pai. A medida, explica Ângela, foi necessária após a saída do homem do CTI, há pouco mais de um mês.
Duas semanas atrás, ela diz que foi abordada por médicos, que recomendaram a transferência de Marco Aurélio para casa já que, dentro do hospital, ele está mais suscetível ao contágio pelo coronavírus (causador da COVID-19). A remoção, relata a arquiteta, custaria cerca de R$ 35 mil mensais à família, uma vez que o aposentado atualmente depende de procedimentos como hemodiálise e alimentação por sonda.
“Seria preciso montar um home care (assistência médica domiciliar) para ele. Isso significa que, tudo o que o plano de saúde cobre enquanto ele está no hospital, teríamos que pagar com o nosso dinheiro. Para se ter uma ideia, apenas uma das injeções diárias que ele toma custa R$ 1800 a unidade. Isso fora aluguel de cama e cadeira de rodas, obras de adaptação no apartamento dele, sessões de fisioterapia, fonoaudiologia…. Estamos desesperados. Já gastamos todas as nossas reservas com o meu pai e não temos mais como arcar com mais despesas”, explica Ângela.
“A impressão que eu tenho é de que a Backer resiste ao custeio dos tratamentos médicos porque isso significaria a admissão de alguma culpa pelas intoxicações. O que eles não entendem é que, independente de quem é o culpado nessa história, a cervejaria tem responsabilidade nisso sim. O produto que o meu pai consumiu, afinal, saiu da fábrica deles”, argumenta.
Backer se defende
A Backer contesta a afirmação das famílias de que não tem não prestado a assistência para custos emergenciais de saúde determinada pela justiça.
De acordo com a cervejaria, a empresa já teve bens bloqueados para "custear despesas médicas não cobertas pelos planos de saúde, bem como assistência aos familiares de pessoas que apresentaram exame toxicológico ou relatório médico indicativo da intoxicação e comprovante de despesas”.
Segundo a Backer, a medida está explicitada na decisão do juiz Sérgio Henrique Cordeiro Caldas Fernandes, da 23a Vara Cível da Comarca de Belo Horizonte, do dia 2 de abril.
O despacho, que se refere a um grupo de 13 pacientes e familiares que fazem parte de ação movida pelo Ministério Público, explica que a Justiça "ainda vai indicar a fonte do custeio, entre os bens da empresa, e liberar os valores na medida em que as despesas indenizatórias se apresentarem, documentadamente."
"A afirmação (de que a Backer não oferece auxílio às famílias), portanto, não encontra respaldo no conteúdo das decisões da Justiça até o momento, não havendo qualquer descumprimento de ordem judicial", diz o texto do comunicado.
