Por Itasat
Voltar a conviver com a família no fim do mês. Este é o plano do médico da cidade de Divinópolis que ficou conhecido ao fazer uma surpresa para a esposa grávida de oito meses e a filha de dois anos, quando se vestiu de cachorro para conseguir abraçar as três amadas.
O cirurgião Lucas Fragoso, de 34 anos, é o único médico que opera a região torácica atendendo em todo o Centro-Oeste de Minas atualmente, já que a outra médica que reveza os trabalhos com ele está com a covid-19. Além do desafio exaustivo de trabalhar no momento da pandemia, o médico se desdobra em acompanhar à distância uma gravidez que está na reta final e lidar com a distância e a saudade da família.
Sobre a fantasia de cachorro que repercutiu pelas redes sociais, o médico disse ter sido a forma mais simbólica que ele encontrou para estar perto da filha. “Eu preferi que ela não visse meu rosto porque eu não queria que ela me perdesse de novo. Eu queria que fosse um encontro bom para ela, que ela ganhasse um amigo. Essa fantasia do cachorro eu achei muito carinhosa, passa uma sensação tranquila e eu achei que ela não ia ter medo”.
“Ela está ficando na casa da minha sogra e do meu sogro, a gente não se vê. Eu sempre digo que estou trabalhando porque ela não entende que não pode voltar para casa ou eu não posso estar com eles por causa da corona, não consigo explicar isso para ela”, diz o médico emocionado.
Pai e filha se falam diariamente por videoconferência. Lucas diz que a parte mais difícil é, justamente, ter que esconder a realidade, por não saber como explicá-la devido ao fato de ela ser tão nova. E essa situação começa a incomodar o médico. “Eu estou começando a ficar preocupado porque ontem ela falou com a minha sogra que estava com uma dor na barriga e falou que tinha de ir para o hospital. Isso é péssimo porque ela está mostrando que quer encontrar comigo e eu não posso estar com ela”, lamentou.
Emocional
O médico se diz bem mais aliviado após o encontro com a filha e a esposa, ele afirma que a distância e a separação são difíceis para todo profissional de saúde. “As pessoas andam preocupadas, obviamente, e, conforme a pandemia se mantém, eu vejo que vai acontecer mais disso com a gente. Momentos de exaltação, de ansiedade, de medo, mas o que eu percebi é que, depois eu encontrei com a minha filha, recarreguei as baterias, fiquei muito mais tranquilo, muito melhor.
Isolamento
Lucas diz estar em isolamento há cerca de vinte dias e acredita que o processo vá durar por mais tempo. Ele, no entanto, não está há mais tempo longe da família graças à colega de trabalho, Ana Paula Coimbra, a qual ele exalta e agradece, que atuou na linha de frente desde o início da pandemia até contrair a covid-19 e ser afastada. “Está sendo um esforço conjunto de muita gente e nós, profissionais de saúde, estamos tentando nos ajudar também para que a gente tenha uma vitalidade para dar o suporte que os pacientes precisam”.
Esse afastamento, segundo o médico é uma situação recorrente e geral em toda área. De acordo com ele, todos estão restritos do ponto de vista familiar. “Como a gente fica nessa exposição intensa, a gente realmente tem que bolar estratégias para não contaminar essas pessoas que mais gosta”.
Medo
Segundo Lucas, a morte da médica oftalmologista Ana Cláudia Monteiro, de 46 anos, primeiro óbito confirmado da covid-19 em Divinópolis, foi um baque para toda a área da saúde e instalou um clima de medo e incertezas. “Para todos nós médicos foi uma situação muito triste, um luto mesmo que a gente teve, não só pela perda de uma colega, mas pela possibilidade de que isso poderia acontecer com a gente também”.
O médico espera que a colega de trabalho, Ana Paula Coimbra, quase recuperada da doença, volte à ativa no final do mês. Assim, ele poderá ter uma folga e voltar a estar com aquelas que ama. Mas, antes disso, Lucas passará por uma série de exames para garantir que não contraiu a doença para se reunir novamente com a família em casa.
