Crianças, em especial as introvertidas, costumam ter um amigo imaginário. Nanda, a narradora de Controle, tem quatro. Ou cinco, se contarmos Ian Curtis (1956-1980), vocalista da banda inglesa Joy Division, entre os que vivem no coração e alma da jovem epilética do primeiro romance da gaúcha Natalia Borges Polesso, vencedora do Prêmio Jabuti em 2016 com os contos reunidos em Amora (Não Editora). Bernard Sumner, Peter Hook, Stephen Morris e Gillian Gilbert estão sempre por perto. Às vezes, como nas últimas páginas do livro, ainda mais próximos do que Nanda consegue vislumbrar.
Os capítulos de Controle são nomeados com as traduções de títulos de canções e álbuns da banda inglesa: Desordem, Segunda-feira triste, Movimento, Irmandade, Bizarro triângulo, Técnica... Na capa, o mesmo óleo sobre tela do francês Henri Fantin-Latour que foi utilizado pelo designer Peter Saville na icônica capa do disco Power, corruption and lies (1983).
“As músicas pareciam se encaixar perfeitamente na minha vida: eles eram comedidos, e eu me identificava completamente. New Order é uma banda que estourou sem um líder, sem um rosto. Uma banda que conseguiu se desenterrar do peso de uma morte. Eles refizeram o futuro”, reflete a narradora, também em busca de “um novo nome, uma nova identidade”, ao justificar sua obsessão.
A epilepsia faz a narradora ser chamada de “a mina do tremelico”. Nanda utiliza fones de ouvido como “fortalezas impermeáveis”; afinal, “se o mundo não me ouvia, eu também não queria ouvir nada do mundo”. A saída do casulo dos pais é acompanhada pela descoberta do desejo por outras mulheres, concretizado no capítulo sintomaticamente intitulado Prazeres desconhecidos (título de um disco do Joy Division).
Doutora em teoria da literatura, Natalia Polesso explica o motivo de o romance incluir uma passagem com a participação de Gillian, a única integrante feminina do New Order: “Gosto da figura, hoje, aquela senhora tecladista, sobre a qual não se fala muito, ela mesma não fala muito. Achei que daria uma ótima personagem. Ademais, as personagens principais são mulheres”, lembra a escritora.