Às vésperas de o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, completar 11 meses, as obras para evitar que o rejeito de mineração continue atingindo o Rio Paraopeba foram concluídas pela Vale, responsável pelo complexo, mas ainda não há um estudo conclusivo sobre a qualidade da água para consumo humano. Para tentar garantir o direito básico ao abastecimento das populações afetadas, um acordo entre a empresa, a Secretaria de Estado de Saúde, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e o Ministério Público deve proporcionar um estudo definitivo para a questão. O levantamento foi uma das providências divulgadas ontem pela mineradora, que anunciou também a criação, em um ano, de um parque na área de Brumadinho mais atingida pelo desastre.
Moradores de Córrego do Feijão e vizinhança relatam que uma água barrenta continua saindo das torneiras. “A água é turva e não tem nenhum laudo sobre isso”, afirma o presidente da Associação de Moradores de Córrego do Feijão, Jeferson Custódio. A mineradora segue abastecendo essa população com caminhões-pipa. Desde a tragédia, foram distribuídos mais de 500 milhões de litros de água potável.
O receio em relação à qualidade dos recursos hídricos é proporcional à quantidade de rejeitos liberados pelo desastre. Cerca de 10,9 milhões de metros cúbicos de lama escoaram com o rompimento da barragem, que acumulava 12 milhões de metros cúbicos. Pouco mais de 10% desse montante (1,2 milhão de m3) foi removido. Entre a base da barragem e o Rio Paraopeba, há de 6 milhões a 7 milhões de metros cúbicos de lama, de acordo com o diretor especial de Reparação e Desenvolvimento da Vale, Marcelo Klein. A remoção total só deve terminar em 2022.
Segundo Klein, concluídas as obras emergenciais para a contenção dos rejeitos, um estudo vai determinar se a água está segura para consumo e pesca. Os parâmetros do estudo ainda estão sendo definidos. “São seis meses para termos esse resultado”, afirmou. Termo assinado pela mineradora transfere as ações de monitoramento de recursos hídricos e sedimentos ao longo da Bacia do Rio Paraopeba e do Rio São Francisco para o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam).
Parque
O diretor informa que o ritmo da remoção de rejeitos será acelerado com a construção de um parque na área da tragédia que matou 257 pessoas e ainda deixa 13 desaparecidos. Apresentado ontem, o “território-parque”, como foi batizado o projeto de requalificação da área do desastre, vai conciliar lazer, turismo e também geração de renda, pois abrangerá uma agrofloresta voltada para moradores.
A previsão é de que a área verde esteja concluída em dezembro do ano que vem. Segundo a Vale, o parque foi idealizado a partir de reivindicações dos atingidos, e contará com mirante, praças, fontes de água construídas, centro de cultura e artesanato, jardins, campo de futebol, piscinas naturais, anfiteatro, viveiros, entre outras atrações. Uma área simbólica será construída em homenagem às vítimas, com capela, cemitério e espelho d'água para contemplação dos visitantes.
A Vale informou ter concluído neste mês as obras emergenciais, que seguem por uma extensão de 9,6 quilômetros, desde a área do rompimento até a confluência com o Córrego Ferro-Carvão, um dos afluentes do Rio Paraopeba. Elas contemplam a construção de duas barreiras hidráulicas e um dique, que retém o excesso dos rejeitos. No curso do córrego, ainda há 25 pequenas barreiras que colaboram nessa contenção. Também foi implantada uma estação de tratamento de água fluvial.
TRANSTORNOS - Apesar das obras entregues, a população aponta que ainda há muito a ser feito. “A maioria das pessoas de Córrego do Feijão que perderam parentes não foram indenizadas. Estão tentando acordos. A Vale não indenizou comerciantes e agricultores”, ressalta Jeferson Custódio, da associação de moradores. Klein reconhece que há ainda casos em andamento. De acordo com a Vale, foram celebrados 4 mil acordos, e em 80% o pagamento foi feito. Sobre a água barrenta nas casas, a empresa afirma que está construindo uma adutora de água para solucionar o problema. O sistema de captação de água no Rio Paraopeba para abastecimento da Grande BH deve ser concluído até setembro de 2020. Já a nova adutora do Rio Pará tem previsão de conclusão em julho de 2020.